19.7.13

A aula, a penitência e 30 p'ró galheiro


Quando ontem à tarde encontrei no hall de entrada do prédio onde vivo a Cacilda Pentelhuda – uma felina de outrora, hoje balzaquiana sessentona de rabo e peitos já descaídos pela rodagem do tempo e de farto buço a pedir meças ao Godofredo Bigodaças, o melhor marcador de penaltys na tasca do Brasileiro, fiquei admirado.

O que andaria ela por ali a fazer?

A mulher, numa azáfama, tocava a todas as campaínhas. De repente, e com um olhar faminto, estendeu-me um papelinho impresso, semelhante àqueles que são apostos por mestres e curandeiros africanos de pacotilha entre o vidro e os limpa-pára-brisas dos automóveis estacionados na rua, anunciando que sua neta, Zéza Matapilas iria este sábado fazer uma pequena demonstração de um produto concorrente da bimby no salão da sociedade filarmónica lá do bairro. Um convite dizia ela, extensivo à intelectualidade indígena que por certo não daria por mal empregue essa tão instrutiva sessão de culinária moderna.

Sorri, agradeci o convite, lembrando-me daquela célebre aula na Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, em que Zéza foi substituída pelo lendário JJ, o Mestre da Táctica, e Cacilda viu as suas funções publicitárias ocupadas pela luminária mais filosófica deste país, uma eminência decrépita e ultrapassada pela voragem dos tempos, bajulada pelos pançudos dos croquetes, carecas da quinta e afins, Manuel Sérgio de sua graça.

 

Saí e dirigi-me à praceta do quarteirão. Pois aí, foi o bom e o bonito. Tobias Diabinho, “A Niagára”, uma velha rameira depravada e infecta – a sua alcunha derivava da sua incontinência na presença de transeuntes e em qualquer local, mijando sempre de pé e de pernas firmes e bem abertas debaixo da sua imunda saia negra para as pedras da calçada, num praguedo contínuo, mais parecendo uma queda de água tal a forte torrente e a sonora marulhada – na presença de uma pequena multidão, rodopiava de joelhos, arrastando-os pelo chão em volta do fontanário.

A dúvida persistia nos curiosos e nas alcoviteiras. Seria o pagamento de uma promessa ou a penitência pelo perdão de algumas antigas malfeitorias?

Logo surgiu Josefa, a beata-mór, de língua afiada, viperina como sempre, dizendo que coisas destas e com quem, só no Bom Jesus do Monte ou no Sameiro, pois aquilo, feito ali, era uma escandaleira intolerável.

Pois nesse momento não me contive e para espanto geral soltei uma valente gargalhada – é que me pareceu ver o Rúben Amorim a fazer o mesmo, dando voltas ao Estádio da Luz em repetidas genuflexões e de mãos bem juntinhas elevadas ao céu, sempre com o olhar virado para a janela do gabinete de “Jorge”, o seu Jesus, num acto de inolvidável e infinita contrição, com Vieira mirando, de olhos esbugalhados e como um papalvo, um contrato de quatro anos e ainda outro entre o Glorioso e o Fenerbahçe, enquanto dava mais um gole num cálice de licor de amêndoa amarga à moda de Braga.

 

Por fim, de sirenes ligadas e por entre apitadelas para todos os gostos apareceu a polícia acompanhada de um séquito de respeito – os reportéres e os cães-de-fila do record das pêtas e do correio da manha. Começaram a indagar, a rebuscar, a procurar por entre aquela pequena multidão, até que deram com um pacato paraguaio, chorando e com o coração despedaçado, ainda atordoado e revoltado pelas dolorosas tormentas que no passado mês de Maio em Amesterdão e no Jamor alguém lhe fez passar. Era o Óscar, um rapaz simples, nascido pobre em Doctor Juan Eulogio Estigarribia. Era mesmo aquele que eles procuravam. Pendia sobre ele um mandato de extradição para a Turquia.

A turba presente, cega e furibunda, liderada por mentecaptos envergando camisolas de um vermelho desmaiado, onde vagabundeavam “generais pimba”, iletrados, boçais, ignorantes, analfabetos e outros badamecos de cullotes cor-de-rosa, contagiada por aquele contingente “paramilitar” que acompanhava a autoridade, instigando-a ao ódio e à perseguição, empurrava estùpidamente o rapaz, e escarnecendo dele, gritava a plenos pulmões:

“- Salta fora do chão sagrado, filho-da-puta de calaça! Molengão de merda que só marcaste golos de penalty e mandaste-nos calar por uma vez!”

Afastei-me, tal qual um Cireneu bíblico, impotente e revoltado com tão ignóbil infâmia, na absoluta certeza de que esta época, 30 golos e uma referência europeia de gabarito já foram para o galheiro.

Não quis assistir a um sacrifício tão cruel e desumano.

 

E lá longe, na Terra Santa, Jesus, o autêntico, pregado na cruz, mas omnipresente, vendo esta injustiça e sem direito aos quatro milhões de euros que o seu homónimo terráqueo da Amadora irá receber dentro em breve a título indemnizatório, gritou de dor:

“- Pai, perdoai-lhes pois eles não sabem o que fazem!”

 

 

GRÃO VASCO


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