24.1.18

Do canil da insolvência…




De há uns tempos a esta parte é assim todas as terças-feiras à noite. Pelo passeio da minha rua acima, lá vem ele arfando, de língua de fora e com o pêlo mal-amanhado. É o rafeiro do bairro, o Xico, resgatado ao Canil da Insolvência pelo sr. Costa, um fulano de oitenta anos, também sempre a contas com a justiça, tendo desempenhado as funções de gerente do caixa e conhecido na comunidade como devoto da santa, mulherengo e refinado aldrabão condenado em processos de corrupção. Pela trela, lá segue o Xico, comandando a matilha, à espera de mais uma alcagoita, mirando desconfiado o dono, que por sua vez se vai peidando ao ritmo pachorrento das suas passadas enquanto declama “Só” de António Nobre. Simplesmente hilariante!

Junto às escadas de acesso ao infantário no rés-do-chão do meu prédio, Xico pára. Está na hora de arriar o calhau com toda a pompa e circunstância. O animal, com os olhos esbugalhados por detrás de uns óculos horríveis, zás! Já está! Quatro e-mails sêcos e transformados em merda! O Xico rafeiro não o faz por menos. Delacroix um velho canídeo da matilha que outrora latia desalmadamente nos telejornais da RTPalermo, ao ver a cena, vai abanando a sua cabeçorra para cima e para baixo, tal e qual como aqueles cães de loiça comprados nas feiras que muitos parolos colocavam na consola traseira dos automóveis.

Nesse entrementes, o dono, o sr. Costa, pigarreando, alça o pernil e lança mais dois ruidosos morteiros para a atmosfera ao mesmo tempo que num relance, mira os prédios circundantes certificando-se de que não há olhares indiscretos a espiarem aquela pouca vergonha. Depois, como quem não quer a coisa começa aos poucos e poucos a arrastar os cagalhotos do seu cão com os pés, chutando-os logo de seguida para a berma do passeio. Saco para os dejectos é que “tá queto!...”

Será que estaria a sonhar e a vislumbrar algum programa do Porto Canil? Ou será mesmo do Porto Canal?


GRÃO VASCO


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